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quarta-feira, 8 de dezembro de 2010

O velho


                

Chico Buarque
1968

O velho sem conselhos

De joelhos

De partida

Carrega com certeza
Todo o peso


Da sua vida

Então eu lhe pergunto pelo amor

A vida inteira, diz que se guardou

Do carnaval, da brincadeira
Que ele não brincou

Me diga agora

O que é que eu digo ao povo
O que é que tem de novo

Pra deixar

Nada

Só a caminhada
Longa, pra nenhum lugar


O velho de partida

Deixa a vida

Sem saudades
Sem dívidas, sem saldo
Sem rival

Ou amizade

Então eu lhe pergunto pelo amor
Ele me diz que sempre se escondeu
Não se comprometeu
Nem nunca se entregou
E diga agora
O que é que eu digo ao povo
O que é que tem de novo

Pra deixar

Nada

E eu vejo a triste estrada
Onde um dia eu vou parar

O velho vai-se agora
Vai-se embora
Sem bagagem
Não se sabe pra que veio
Foi passeio
Foi Passagem
Então eu lhe pergunto pelo amor
Ele me é franco
Mostra um verso manco
De um caderno em branco
Que já se fechou
Me diga agora
O que é que eu digo ao povo
O que é que tem de novo
Pra deixar
Não

Foi tudo escrito em vão

E eu lhe peço perdão

Mas não vou lastimar

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Poesia retirada http://www.rubemalves.com.br/ovelho.htm acessado oito de dezembro, 2010 às 14:56

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