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segunda-feira, 7 de fevereiro de 2011

Barreiras culturais e conceituais

http://sosriosdobrasil.blogspot.com/2010/08/o-que-mudou-no-semiarido-o-clima-ou.html
Olá gente, após muito tempo sem postar, venho falar a vocês um pouco da minha experiência nestas férias. No final de dezembro fui a Bahia, mas não fui ao litoral, fui para o interior do semi-árido. Fiquei por dez dias na zona rural, onde havia um povoado. A maioria das casas só tinha energia elétrica há doze anos algumas, onde a emergia elétrica não havia chegado, utilizavam, precariamente, a energia solar. Em várias casas não haviam banheiro, nem mesmo aquelas fossas, umas com um buraco no chão, já viram? Sim, eles fazem suas necessidades fisiológicas no mato. A água que abastece as casas vem de poços construídos pela prefeitura ou das cisternas, como eles chamam, que é, tanto um como outro, um reservatório da água da chuva. No primeiro a água que cai da chuvas forma um lago considerável, podendo secar caso a seca se prolongue. O reservatório recebe a água da chuva que cai no telhado das casas. Também pode acabar caso não chova. Algumas pessoas constroem os próprios poços, ou tanques, como eles dizem. Ali, vi uma água cor de barro, me disseram que estava assim em razão da chuva, ocorrida naqueles dias. Uns homens trabalhavam com um transporte alternativo, levando e trazendo as pessoas e cargas para a cidade em seus respectivos carros, uns montam bares, outros trabalham com a criação de porcos, galinhas e ou cabritos, o que por sinal não parece gerar grandes rendas. As mulheres, em sua maioria, trabalham nas próprias casas, cuidando do lar, do esposo e dos filhos. Homens e mulheres aguardavam a época de colheita do café em Minas para realizarem a migração sanzonal por motivo de trabalho. 
fonte:
http://www.pi.gov.br/materia.php?id=16101 
Havia igreja, associação e escola para crianças até a oitava série. Um posto de saúde, que mal funcionava , por falta de profissionais. Como opção de lazer resta as brincadeiras onde os elementos são de fácil acesso. Brincam-se de futebol, baralho, dominó, o jogo da malha (ver no site http://pt.wikipedia.org/wiki/Jogo_da_malha), badoque, conhecido por nós mineiro de estilingue. Exceto os jogos de sinucas e dominó nos bares, vi adultos e crianças brincando juntos. 
A vegetação é baixa, e praticamente todos os vegetais apresentavam espinhos. É comum ver palma, uma vegetação comestível e umbú, uma fruta típica da região. O que em Minas chamamos de cajá, eles chamam de siriguela, a mesma não é uma arvore típica da região, embora a vi nos quintais de muitas casas.
Até aqui eu relatei a situação a partir de uma perspectiva de quem vive na cidade, com relativo conforto. E que, no primeiro momento, só consegue ver uma paisagem arcaica, sofrida e curiosa. Todavia se eu tivesse começado o texto com aquilo que vi na relação e na vivência daquelas pessoas, possivelmente este post se tornaria mais leve, bonito e encantador. Mas como nosso movimento prático é sempre de perceber o concreto, o de fácil percepção, narrei tal qual foi meu olhar. E a melhor parte, aquela que na verdade mais me tocou, ficou pr'u final.
 fonte
http://www.sitecurupira.com.br/meio_ambiente/barraginha.htm
Se por um lado a falta de recursos materiais me abalou, por outro a educação, a simplicidade, a harmonia, a beleza daquelas pessoas me deixaram pequena e fútil. Lembrando que a beleza a que me refiro, não era somente a interior. Diante do choque cultural que tive, da agressão da vegetação tão espinhosa, nem comentei sobre os traços finos e delicados daquelas pessoas que conheci. Peles brancas, olhos claros, cabelos lisos, homens viris, mulheres de corpos bem definidos, talvez seja mais uma dos nossos estereótipos de beleza, sobre gente que mora na cidade e na roça, presente na minha descrição. Outras coisas porém fogem à nossa sensibilidade. Quando uma visita de longe chega, muitos soltam fogos de artifícios , a recepção, além disso, é calorosa e com muita fartura. Geralmente matam-se porcos, galinhas, cabritos e fazem o que há de melhor para o hóspede. No meu caso, não teve fogos de artifícios ( que pena), mas além do que jah foi citado, outros moradores, amigos daqueles que me hospedavam, foram me visitar. O fato de eu estar mais calada nos primeiros dias, até por falta de assunto mesmo (afinal o que eu teria pra falar com quem eu nunca vi antes?) fez com que achasse que eu fosse tímida. Mas rapidamente quebrei o gelo.
As crianças respeitam visivelmente os adultos, e sempre que encontra com um pede a bênção. Não é temor, é respeito. Os mais velhos sempre ao me cumprimentarem me diziam, "Deus te abençoe", entende?
No natal, fizeram "vaquinha" e mataram um boi, muita gente se reuniu pra dançar o forró agarradinho, nada de voltinha ou jogar a moça pr'um lado e outro como fazemos no nosso forró universitário. Os rapazes aproveitam a dança pra chegar nas moças, os que não sabem dançar, manda recado a quem tivesse mais proximidade com a moça. Não é muito natural o "ficar", os rapazes querem namorar e casar (???!!!) os casamentos acontecem muito cedo, se houver gravidez, este apressa ainda mais o casamento. E casam!


A interação entre eles é admirável. Conversam, se abraçam, se ajudam, se reúnem, se gostam, mas também brigam, se afrontam, se ignoram, se perdoam se reconciliam ou discretamente se afastam. Juntos na associação, muito bem organizados e definidos os papeis, eles buscam melhorias para o povo. Na igreja, que está sendo construída por eles e por doação, as mulheres se reúnem e com a participação de um diácono, também da comunidade, realizam a celebrações dominicais.
Ao contrário do que a narrativa inicial nos faz pensar eles são felizes, gostam de onde vivem, muitos retornaram pra lá há poucos anos e não querem sair. Isso entretanto, nem sempre é fácil de ver, visto que estamos constantemente analisando os outros via nossas lentes, sobre o que acreditamos ser civilizado, bonito, bom, confortável, certo, errado, importante, melhor e ou pior.
Esta foi certamente uma experiência riquíssima pra mim. Agora espero que quando eu dizer que estive na Bahia ninguém me pergunte mais: "vc foi a praia?". Parece estrangeiro perguntando se a gente mora no Rio, São Paulo ou Belo horizonte, quando falamos que somos brasileiros.

Nana Andrade

2 comentários:

  1. Nana está de parabéns pelo blog, que contextualiza coisas do cotidiano que muitas vezes passa despercebido,acredite que estes textos faz a gente refletir problemas que temos e as vezes não damos tanta relevância,eu li e gostei dos textos.

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  2. Oi Amanda,
    obrigada pelo elogio e pela sua visita constante.
    Um abraço, volte sempre.

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