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terça-feira, 31 de maio de 2011

Sentir raiva é ruim?

A raiva é um sentimento como qualquer outro ( sensação de ter escrito isso antes), e ela, por si só, não pode ser determinada como algo ruim ou bom. 

Às vezes, o sentimento de raiva faz mal para aquele (a) que a sente, isto porque o mal humor, quase nunca, é saudável, afasta pessoas do nosso lado, nos deixam amargos, frios e, por consequência, solitários. A raiva, algumas vezes, nos impede de ver o movimento da vida, de perceber os pequenos gestos de carinho e solidariedade. A raiva pode, ainda, deixar o sujeito tão "bitolado" no objeto, que lhe desperta tal sentimento, que se torna incapaz de ver e pensar coisas fora daquela dimensão.

Por outro lado, é exatamente este comportamento que pode liberar o homem de seu objeto. Pensemos, sabe aquelas pessoas que nos impedem de crescer, de desenvolver, que estão sempre nos puxando pra baixo, ou nos estagnando? Sabe aqueles comportamentos, vícios, dependências e apegos que você gostaria de se libertar e não consegue? Pois bem, é nestes momentos que a raiva é muito bem vinda, e, digamos, faz bem. Você se volta com repulsa ao objeto que lhe desperta raiva. E, por isto, consegue tomar a atitude que passou dias, meses ou anos ensaiando. Você é capaz de brigar, falar, descarregar. E nada pior que engolir calado as contrariedades que se apresentam.

A raiva, porém, não é o único caminho pra se resolver as pendências com nossos objetos, nem o melhor, nem o pior. É apenas uma possibilidade. Além disso, a raiva é passageira. Há pessoas que sofrem caladas, estão sempre fazendo a vontade dos outros, estão constantemente agradando as demais para manter uma situação " harmoniosa",  mas um dia, de repente, explodem! Ficam com raiva e são capazes de dizer e fazer coisas jamais ditas e feitas. Elas surpreendem a si mesmas e aos demais.

Contudo, após tomada atitude a raiva passa e a pessoa precisa decidir, retomará os velhos hábitos ou seguirá novo caminho? Caso a resposta seja a primeira alternativa, deve lembrar que um novo momento de cólera já não será surpresa pra ninguém, dai ou não surtirá efeito ou o furor será ainda pior, sem rumo e controle.

É... a raiva é só um caminho.

domingo, 22 de maio de 2011

Religião: busca da felicidade ou postergação do sofrimento?


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Caros leitor@s, nos últimos dias, tenho acompanhado o discurso, seja em conversas nas ruas, programas de televisão e Blogs diversos, sobre a relação do homem religioso diante de si e dos conflitos que lhe cercam, porque, diga-se de passagem, sempre lhe cercam.

Gostaria de realçar que não estou aqui para falar de uma religião específica, ou para questionar a existência de Deus. Todavia, proponho a reflexão sobre o uso da religião para justificar nossos atos e posturas frente ao sofrimento. O que não se trata de criticar, negativamente, a fé, mas de pensá-la à luz da teoria freudiana.

As religiões, como todas as instituições sociais, são compostas por regras morais que, de alguma forma, ditam um padrão de comportamento, sejam em um determinado modo de vestir-se, e/ou ao modo de ser e relacionar com o outro. Tais regramentos são aprendidos e introjetados pelos sujeitos como condição do aprimoramento e elevação na fé.

O fato é que as intempéries da vida, as tribulações e decepções causam um sofrimento árduo demais para nós. Assim, recorremos, segundo Freud, à medidas que minimizam ou nos afastam do sofrimento. É por esta razão que muitas pessoas recorrem ao uso de drogas, álcool e outros vícios. O efeito destes é a insensibilidade, momentânea, ao sofrimento ou, ao menos, àquilo que a pessoa julga sofrer. Sambemos, contudo, que seguindo esta via não é a felicidade que esta pessoa está procurando, mas trata-se de fuga da realidade que lhe apresenta como fardo doloroso.

Também, de acordo com Freud, a religião e a arte são tomadas como medidas paliativas ao sofrimento.  No caso da religião, que é o tema da discussão, ela não torna o sujeito insensível à realidade, mas busca transcender (palavra muito usada nas religiões) e transformar o sentido do sofrimento. Neste processo, a ilusão é imprescindível para mitigar a realidade.

Definamos, então, o sofrimento e a felicidade, para compreendermos melhor a possível relação destes com a religião. A felicidade, defendida pela psicanálise, é oriunda da satisfação do prazer. Nessa perspectiva, a felicidade está restrita a nossa própria constituição. Ou seja, trata-se de um movimento que inicia em nós. Já o sofrimento, mais passível de experimentação, se origina de três fontes: da debilidade do próprio corpo compreendida, dentre outros, nas dores físicas, envelhecimento e finitude; de ações externas que se voltam  contra nós e dos relacionamentos afetivos o qual julgamos ser a mais difícil de todas. Como se o sofrimento advindo das relações amorosas fossem algo a mais, um fator extra de sofrimento, todavia, segundo Freud, ele nada mais é que um fato tão inevitável quanto as demais fontes de sofrimento. 

Assim, diante de tanta pressão desencadeadora do sofrimento é compreensível que as pessoas deixem de buscar a felicidade para investir na esquiva daquele. Deste modo, para estas pessoas ser feliz não é a satisfação do prazer, mas a negação do sofrimento. Por isso, a religião se torna uma possibilidade delas lidarem com um conflito sem perder de vista a busca da felicidade. Já que esta, para religião, diferentemente do que pensa a psicanálise, é um mérito a ser alcançado a partir da mudança de padrões morais e éticos.
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Não é raro encontrarmos, na porta de igrejas, convites de oração e blogs religiosos, promessas de cura e fim ou suporte a angústia. Isso porque o sofrimento é justificado como provação ou punição, levando o sujeito a aceitar e adaptar-se ao mesmo, como condição de redenção e evolução espiritual, para então desfrutar da felicidade eterna com o Pai. Assim, a felicidade é sempre um a posteriore, geralmente deslocada da vida terrena.  

Se, nesta situação, o sujeito encontra consolo e explicação para o desencadeador do sofrimento, ainda que de ordem externa a ele, não há razões para questionar, confrontar e transformar o sofrimento. Até porque, a religião não tem, a priori, a finalidade de tornar o homem crítico, mas de ampará-lo e consolá-lo, trazendo-lhe a resposta sobre sofrimento de todas as ordens, inclusive o inevitável fim. Ela se sustenta em respostas e “verdades absolutas” transferidas como suporte espiritual ao sujeito.

E não são respostas que buscamos o tempo todo?

Embora Freud tenha se reconhecido como ateu e faz uma brilhante discussão sobre a atuação da religião no processo da civilização, devo dizer que eu não o sou, e, ainda se o fosse, o que proponho, como já disse anteriormente, é uma crítica e reflexão no papel da religião quando o assunto é o sofrimento, ou melhor a felicidade.

O perigo disso tudo, creio eu, é o sujeito chegar a certa idade da vida e perceber que todo o sofrimento justificado pode ter lhe causado a privação da felicidade e por decorrência um sofrimento ainda maior do que realmente seria caso tivesse a coragem de enfrentá-lo.


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Nana Andrade com base nos textos:  O futuro de uma ilusão e o Mal estar na civilização de Sigmund Freud.



sábado, 7 de maio de 2011

O desejo nas relações amorosas

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Recebi uma amiga em minha casa que procurou-me para desabafar. Ela, há algum tempo, vem enfrentando  crises, no namoro, que lhe tem abalado profundamente. Estou precisando de ajuda, foi esta a frase que ela  usou ao referir sobre o namoro.  Não é de hoje que ela vem expondo as dificuldades e os términos que aconteceram. A cada término ouço sempre a mesma coisa: mas não compreendo, ainda ontem estávamos bem, ainda ontem ele me disse que me amava, ainda ontem ele queria casar. Enquanto amiga, aconselhei como pude, escutei e confrontei-lhe em seu proprio discurso. Enquanto estudante de  psicologia, sugeri que buscasse uma análise. Ali, há questões a serem trabalhadas e, caso ela não procurasse um profissional capacitado, poderia sucumbir-se as suas angústias.

Sei, no entanto, que este não é um problema isolado, pelo contrário, as principais demandas de análise ( ou terapia) são de pessoas, de ambos os sexos, que não estão mais suportando os problemas nas relações amorosas, seja por ciúme, apego, carência, medo de perder, controle, dificuldades de terminar, por sentirem que amam demais e ou que são amadas de menos. 

Por isso, à luz da teoria Freudiana, resolvi propor aos meus leitores uma reflexão sobre alguns sintomas estruturais manifestados na relação amorosa e que causam o adoecimento psiquico. Vou evitar, entretanto, o uso de termos proprios das psicanálise para que a leitura seja de fácil apropriação a todos.

A maioria das mulheres e alguns homens, também, mantêm uma relação um tanto alienada em relação ao desejo do parceiro (a). Isto, muitas vezes, ocorre em função de uma frustração vivida, ainda quando criança, que são projetadas e passam a repetir em todas as relações amorosas. A pessoa acredita que o (a) parceiro (a) possui aquilo que ela não tem, portanto, sua demanda é sempre dependente deste (a) parceiro (a), e é neste último que se espera encontrar o próprio desejo. Desejo que pode variar de pessoa pra pessoa. Desejo de amor, de carinho, de atenção e etc..Criatividade para nomear este desejo é que não falta às pessoas assim.
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A alienação se efetiva, justamente, nessa crença de achar que o próprio problema, ou a falta que sente pode ser suprimida pelo (a) parceiro, que é visto (a,) então, como um ideal. Mas, infelizmente, não é. A pessoa não percebe que a doença vem exatamente ao se depositar no (a) parceiro(a) a culpa do relacionamento não estar bem, como se coubesse a este (a) ultimo (a) a solução da harmonia, do amor e, por fim, a satisfação do desejo. O mais engraçado de tudo isso é que, na verdade, embora o (a) parceiro corresponda àquilo que ele   (ela) queria, de alguma forma, este (esta) último ou vai esquivar, ignorar, ou vai arrumar outra demanda a este (a)parceiro (a). 

Por exemplo: Uma colega reclamou que o namorado sempre viajava às quartas-feiras e que reclamou com ele e o pediu para ficar um dia a mais e se encontrar na quinta-feira. O namorado, então, cede às cobrança e decide almoçar junto com a namorada na quinta-feira. E ela me conta esta história, dizendo que ia faltar na quinta, pra ele aprender(???!!!) Aprender o que?

E, não obstante, estas pessoas, ainda, supõem saber o que se passa com o(a) parceiro (a) e, por isto, se  debruçam para tentar realizar o que elas pensam ser o desejo destes (as).  Elas fazem com o (a) parceiro (a) aquilo que julgam querer receber. Logo, é um sacrifício sem fim.

O saudável é que as tantas mulheres e os poucos homens, em questão, se dessem conta de que está em si mesmo o poder que eles atribuem estar no outro. 

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Nana Andrade com base na leitura do texto:  XI Os traços da estrutura histérica de Sigmund Freud.
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