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domingo, 22 de maio de 2011

Religião: busca da felicidade ou postergação do sofrimento?


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Caros leitor@s, nos últimos dias, tenho acompanhado o discurso, seja em conversas nas ruas, programas de televisão e Blogs diversos, sobre a relação do homem religioso diante de si e dos conflitos que lhe cercam, porque, diga-se de passagem, sempre lhe cercam.

Gostaria de realçar que não estou aqui para falar de uma religião específica, ou para questionar a existência de Deus. Todavia, proponho a reflexão sobre o uso da religião para justificar nossos atos e posturas frente ao sofrimento. O que não se trata de criticar, negativamente, a fé, mas de pensá-la à luz da teoria freudiana.

As religiões, como todas as instituições sociais, são compostas por regras morais que, de alguma forma, ditam um padrão de comportamento, sejam em um determinado modo de vestir-se, e/ou ao modo de ser e relacionar com o outro. Tais regramentos são aprendidos e introjetados pelos sujeitos como condição do aprimoramento e elevação na fé.

O fato é que as intempéries da vida, as tribulações e decepções causam um sofrimento árduo demais para nós. Assim, recorremos, segundo Freud, à medidas que minimizam ou nos afastam do sofrimento. É por esta razão que muitas pessoas recorrem ao uso de drogas, álcool e outros vícios. O efeito destes é a insensibilidade, momentânea, ao sofrimento ou, ao menos, àquilo que a pessoa julga sofrer. Sambemos, contudo, que seguindo esta via não é a felicidade que esta pessoa está procurando, mas trata-se de fuga da realidade que lhe apresenta como fardo doloroso.

Também, de acordo com Freud, a religião e a arte são tomadas como medidas paliativas ao sofrimento.  No caso da religião, que é o tema da discussão, ela não torna o sujeito insensível à realidade, mas busca transcender (palavra muito usada nas religiões) e transformar o sentido do sofrimento. Neste processo, a ilusão é imprescindível para mitigar a realidade.

Definamos, então, o sofrimento e a felicidade, para compreendermos melhor a possível relação destes com a religião. A felicidade, defendida pela psicanálise, é oriunda da satisfação do prazer. Nessa perspectiva, a felicidade está restrita a nossa própria constituição. Ou seja, trata-se de um movimento que inicia em nós. Já o sofrimento, mais passível de experimentação, se origina de três fontes: da debilidade do próprio corpo compreendida, dentre outros, nas dores físicas, envelhecimento e finitude; de ações externas que se voltam  contra nós e dos relacionamentos afetivos o qual julgamos ser a mais difícil de todas. Como se o sofrimento advindo das relações amorosas fossem algo a mais, um fator extra de sofrimento, todavia, segundo Freud, ele nada mais é que um fato tão inevitável quanto as demais fontes de sofrimento. 

Assim, diante de tanta pressão desencadeadora do sofrimento é compreensível que as pessoas deixem de buscar a felicidade para investir na esquiva daquele. Deste modo, para estas pessoas ser feliz não é a satisfação do prazer, mas a negação do sofrimento. Por isso, a religião se torna uma possibilidade delas lidarem com um conflito sem perder de vista a busca da felicidade. Já que esta, para religião, diferentemente do que pensa a psicanálise, é um mérito a ser alcançado a partir da mudança de padrões morais e éticos.
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Não é raro encontrarmos, na porta de igrejas, convites de oração e blogs religiosos, promessas de cura e fim ou suporte a angústia. Isso porque o sofrimento é justificado como provação ou punição, levando o sujeito a aceitar e adaptar-se ao mesmo, como condição de redenção e evolução espiritual, para então desfrutar da felicidade eterna com o Pai. Assim, a felicidade é sempre um a posteriore, geralmente deslocada da vida terrena.  

Se, nesta situação, o sujeito encontra consolo e explicação para o desencadeador do sofrimento, ainda que de ordem externa a ele, não há razões para questionar, confrontar e transformar o sofrimento. Até porque, a religião não tem, a priori, a finalidade de tornar o homem crítico, mas de ampará-lo e consolá-lo, trazendo-lhe a resposta sobre sofrimento de todas as ordens, inclusive o inevitável fim. Ela se sustenta em respostas e “verdades absolutas” transferidas como suporte espiritual ao sujeito.

E não são respostas que buscamos o tempo todo?

Embora Freud tenha se reconhecido como ateu e faz uma brilhante discussão sobre a atuação da religião no processo da civilização, devo dizer que eu não o sou, e, ainda se o fosse, o que proponho, como já disse anteriormente, é uma crítica e reflexão no papel da religião quando o assunto é o sofrimento, ou melhor a felicidade.

O perigo disso tudo, creio eu, é o sujeito chegar a certa idade da vida e perceber que todo o sofrimento justificado pode ter lhe causado a privação da felicidade e por decorrência um sofrimento ainda maior do que realmente seria caso tivesse a coragem de enfrentá-lo.


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Nana Andrade com base nos textos:  O futuro de uma ilusão e o Mal estar na civilização de Sigmund Freud.



4 comentários:

  1. Obrigada pela visita e comentário simpático, seja bem-vinda.
    Hj fui entrevistada sobre o tema religiao e sexualidade, mais tarde vou colocar o resultado da pesquisa no blog.
    abs Elianne

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  2. Diz é uma psicanalista e escritora, ela é autora do http://orientacaopsi.blogspot.com/ Blog que eu recomendo aos meus leitores.
    Este comentário dela é em referencia à minha visita ao seu Blog.
    Fico honrada e agradecida pela passagem dela por aqui tb.

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  3. Nana, concordo com você em termos.
    Na verdade, eu fico no meio da balança. Sofrer sempre nos ajuda a crescer, mas isso não quer dizer que temos que passar o resto da vida sofrendo e colocando a justificativa na religião.
    É preciso confiar em um Deus, sejam quais forem as circunstâncias.

    Já te sigo.
    Beijos.

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  4. Oi Jayne,
    brigada por seguir o Blog.

    Se ficou entendido que eu disse que não devemos confiar em Deus, eu também vou discordar de mim, já que sinto que não me basto, e recorro a Deus diariamente para agradecer ou pedir.

    Minha posição é que as pessoas, muitas delas, recorrem a religião para procurar a solução de seus problemas, a cura e o alivio da dor. Isso seria ótimo se as pessoas não atribuíssen à religião uma justificativa do que lhe acontece, já que os problemas sem a implicação delas, também não se resolven por si só.

    Creio num Deus que me chama a luta, a me impor e a contrapor, a refletir e a aceitar o sofrimento não como condição de salvação ou como condição de pagar os meus pecados, mas por consequencia dos fatores reais e concretos.

    Meu sofrimento, na minha opinião, não pode ser dissociado da realidade e do contexto a que vivo. E, portanto, enfrentá-lo demanda de mim enfrentar a propria realidade.

    O próprio Freud, que se diz ateu, exemplificou alguns religiosos por seu nível de sublimação, crescimento pessoal graças a fé que eles vivenciaram.

    Só estou acrescentando este comentário pra eu não parecer contraditória. Já que me porto como como católica praticante, o que não me impede de refletir a minha propria religião.

    Por isso, eu trouxe uma crítica à banalização da religião, ao modo de compreender Deus distoada da sociedade, de si próprio e das relações.

    No mais, agradeço seu comentário, sinto que outras pessoas, por não concordar do post, preferiram não comentar, o que é uma pena, já que acredito que testemunhos, exemplos, críticas e reflexões distintas podem, somente, contribuir e ampliar as maneiras de ver e construir o mundo.
    Abraços

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