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domingo, 26 de junho de 2011

O paradoxo da sociedade do controle e da moral

A sociedade contemporânea vem vivenciando um paradoxo entre controle e moral, cujos conceitos, até então, vinham se sustentando um pelo outro. 

Um dos instrumento de controle era a moral imposta. A moral, por sua vez, tinha como uma de suas finalidades: o controle.

As grandes transformações sociais e culturais têm desestabilizado essa relação de controle e moral e, parece, estar afetando diretamente na identidade das instituições e do individuo.

A Igreja católica, por exemplo, justificou e sustentou o feudalismo, a escravidão, e a evangelização do índio, que em muitos momentos,  revelou mais violência cultural que outra coisa. A ciência justificou e sustentou os manicômios, onde os loucos, muitas vezes, eram tratados como bichos. A escola tem justificado e reforçado a posição hierárquica mantida entre o professor e o aluno, bem como entre os próprios alunos a partir da manifestação e suposição do "conhecimento" destes. A família assumiu e sustentou não só posições hierárquicas e, como todas as demais instituições citadas, lugar de repressão sexual.

O advento da tecnologia, a facilidade de acessos a internet e tantas outras transformações culturais e sociais têm exigido que estas instituições revejam suas posturas, reformulem seus discursos para continuarem a existir, já que elas foram cúmplices em distorções da realidade, coibição da liberdade, atrofiamento político e da autonomia e/ou empecilhos na formação do indivíduo. Por outro lado, estas instituições também foram e são importantes para tudo que a isto se opõe. Ou seja, quando estas mesmas instituições se permitiam ou se permitem ao diálogo, à reflexão interna, à busca, ainda que imperfeita, da construção da ética e dos valores morais, sem sobrepor um ao outro, elas operavam e operam para o contato, transcendência e transformação social da realidade. Nisto resulta uma fé sublime, uma ciência inacabada, uma educação construída e uma família pautada pelo amor e crescimento.

Todavia, o que se tem visto, infelizmente, são essas instituições se perdendo porque seus instrumentos de controle ou moral estão se desfazendo. Alguns movimentos religiosos buscam agregar os fieis pelas suas fraquezas e "problemas impossíveis" prometendo a cura e a saída do sofrimento. A ciência, perdendo o posto da verdade absoluta, cai no relativismo desordenado, ou na crítica pela crítica; a escola "psicopatologiza"   todas as crianças apontadas com desvio de padrão; a família, que diga-se de passagem já vem sendo modificada há algum tempo, com o número de divórcios, mães solteiras e, atualmente, com o debate dos casais homossexuais, parece que não está dando conta das mudanças nela ocorrida atribuindo aos filhos as reminiscências (resto) do que ficaram, ou sejam, por terem elas mesmas fracassado, de alguma forma, ou se perdido em seu lugar, querem suprir isso  nos filhos, não deixando, ou não tentando deixar, estes na falta.

Assim somos lançados nessa sociedade ambígua que exige de nós uma padronização de comportamento moral que ela mesma não dá conta. 
E, na tentativa de se "enquadrar" nessa  (des)ordem, nos traímos, visto que nossas condutas refletem grandes lacunas que nós mesmos desconhecemos, da qual também somos cúmplices e fatalmente perpetuamos.

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Nana Andrade

quinta-feira, 16 de junho de 2011

Fantasia e realidade: qual o destino deste trem?

Não raro, deixamos de desfrutar das coisas e fatos por depositar nelas expectativas além do que elas nos podem oferecer.

Certa vez, tive a oportunidade de fazer um passeio de Maria Fumaça cujo trajeto é São João del Rei a Tiradentes, duas lindas cidades históricas rodeadas por montanhas e rios. O passeio não é tão barato pra se ir sempre, nem tão caro pra não se ir nunca. Contudo, aguardei até que chegasse um momento para que eu pudesse fazer o que inúmeros turistas sempre fazem ao chegar nesta região: o famoso passeio de Maria Fumaça. Assim, quando recebi o convite de um amigo, que visitava a cidade, fui, finalmente, conhecer o tal percurso.

Estava muito entusiasmada com a beleza da locomotiva e com a natureza que eu poderia avistar no passeio lento que o nosso transporte proporcionaria. Eu mesma cheguei a dizer para este amigo, que o passeio seria lindo, a vista perfeita, uma vez que, ao viajar de ônibus pela estrada real, que liga as duas cidades mencionadas, me maravilhava com as serras e cachoeira em volta do caminho.

Porém, ao esperar essa paisagem ideal para um passeio de trem, eu não percebi que já estávamos chegando ao nosso destino. Não me recordo bem das imagens que vi, nem das conversas no trajeto, se é que tivemos, pois, tudo o que vimos, ainda, não era o que eu esperava ver. O fato é que o caminho era normal, rodeado por casas, currais, nada muito belo, achei até meio singelo. 

Assim somo nós, em muitas ocasiões, e, às vezes, nas mais importantes delas, depositamos tantas expectativas e fantasias que não enxergamos os fatos, coisas e pessoas como realmente são. Daí, por estarmos sempre esperando um "por vir", não nos mobilizamos para fazer daquilo que temos, se não especial, já que também não precisamos cair em outro extremo da fantasia, um algo a ser investido, construído e usufruível. 

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Nana Andrade
Imagem disponível em em http://meme.zenfs.com/u/ea1979cef5c41841d098f63be72e93f5b7e60c8d.jpeg


sábado, 11 de junho de 2011

Porque temos vergonha de nossas tristezas?


Demonstrar fraqueza para muitas pessoas pode ser algo muito penoso. Revelar que não estão dando conta de suportar suas fantasias, os medos, as incertezas, as faltas (sentimentos, geralmente, atribuídos aos fracos) são para estas pessoas algo tão difícil de expressar como é doloroso sentí-los. Por isso, inventam mil formas  de uma alegria disfarçada ou inúmeros argumentos com os quais pensam justificar essa angústia.

Isso é muito comum na nossa sociedade que não sabe conviver com o sofrimento, com a tristeza, com a falta. Felicidade, às vezes, parece uma obrigação. Martha Medeiros em seu texto A tristeza permitida fala justamente da intolerância social em relação a tristeza:
 "Se eu disser pra você que hoje acordei triste, que foi difícil sair da cama mesmo sabendo que o sol estava se exibindo lá fora e o céu convidava para a farra de viver...o que você me diz?...Você vai dizer “te anima” e me recomendar um antidepressivo, ou vai dizer que tem gente vivendo coisas muito mais graves do que eu....Você vai fazer isso porque gosta de mim, mas também porque é mais um que não tolera a tristeza: nem a minha, nem a sua, nem a de ninguém..."
Exatamente por isso é tão difícil falar do que julgamos ser nossas fraquezas, parece que a sociedade é dos fortes. E que fortes são estes, que ideal de felicidade é esse que permeia em nós?

Daí, parece que vai virando uma bola gigante de projeções, você se envergonha de estar sofrendo, se cobra a felicidade que acredita que o outro tem, mas, ao menor vacilo do sujeito "feliz" já será o suficiente para que você diga a si mesmo: "de que adianta ter 'isso tudo' e  não ser feliz?" Como se a felicidade se resumisse no ter (ter um (a) companheiro (a), ter dinheiro, ter uma casa, ter filhos, ter muitos amigos). A gente faz ao outro o que fazem com nós, porque buscamos a felicidade sempre fora, enquanto que sufocamos a tristeza.

A questão que a tristeza quanto a felicidade moram num mesmo lugar: dentro de nós, não fora. E não necessariamente se opõem.

Assim, nossa felicidade não pode ser medida pelo outro, nem mesmo a angustia.
"Tem dias que não estamos pra samba, pra rock, pra hip-hop, e nem pra isso devemos buscar pílulas mágicas para camuflar nossa introspecção, nem aceitar convites para festas em que nada temos para brindar. Que nos deixem quietos, que quietude é armazenamento de força e sabedoria, daqui a pouco a gente volta, a gente sempre volta, anunciando o fim de mais uma dor – até que venha a próxima, normais que somos." (Martha Medeiros)
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Nana Andrade

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