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segunda-feira, 27 de junho de 2016

Navegar é preciso, viver não é preciso


'Olhei para o mar e aquietei-me, 

sua imensidão pôs em evidência minha pequenez. 

O vai e vem das ondas mostrou-me que, 

apesar dos dias conturbados, 

é possível manter-se em seus domínios...


Além disso, eu vi rochas transformadas pela agitação da água.


A linha no extremo mar, que demarcava um não limite do seu fim, deu-me esperança e medo. 

Esperança porque há sempre o que buscar, avançar e encontrar. 

Medo porque não temos o controle. 


Sim, "navegar é preciso, viver não é preciso".'


Desejo uma boa semana para todos e todas, escutemos as ondas que nos chacoalham, é dai que também virá a calmaria.




quarta-feira, 15 de junho de 2016

Deixe ir o que já se foi.


Quando eu estava no quinto ou sexto ano escolar uma das coisas que mais gostava na aula de português eram as poesias contidas nos livros didáticos. Óbvio que os professores daquele tempo usavam as poesias apenas para trabalhar gramática e normas da língua portuguesa. Não havia uma reflexão sobre a leitura. Talvez julgassem que nós crianças não a podia fazer. Mas algumas histórias ficaram gravadas em minha mente. Uma delas é "A menina do leite" de Rosa Ramos.

Hoje encontrei a poesia e percebi que, na altura, não a tinha conhecido por completo. O nosso livro apenas contia um trecho, exatamente o que eu irei colocar aqui abaixo. Confesso que gostei do recorte que tínhamos, a poesia completa quase que já te dá uma lição de moral. E, pra mim, uma boa literatura é aquela que não diz a você o que há dito, mas te faz pensar no tanto que se há por dizer.


"Num dia primaveril,
Claro e ensolarado,

Seguia aquela menina

A caminho do mercado.


Com seu jarro na cabeça

Oferecia e sorria:

- Olha o leite! – Olha o leite!

Este era o seu dia a dia.
...
Caminhava tranqüilamente,
Suavemente, imitando
Quase que um passo de dança,
Alegremente pensando:


“Venderei todo esse leite,

Com o dinheiro comprarei

Cem ovos. E cem pintinhos

Logo, logo, pois, terei.”
“Os pintinhos vão crescer,

Então eu os trocarei,

No mercado, por um porco

Ao qual engordarei”.

“Quando ele ficar roliço

Então eu o trocarei

Numa vaca com bezerro,

A quem alimentarei”.
“Sendo bem alimentada,

Muito leite ela dará,

Com o qual farei muitos queijos.

E o bezerro crescerá

Forte e sadio...” – Já estou

Vendo o bichinho correr

No campo, entre as ovelhas!

Diz ela, a estremecer.

Há em seus olhos um brilho

De puro contentamento.

E a menina esquece

Do jarro, por um momento.
...
Com o movimento brusco
O jarro escorregou
E se desfez em pedaços
Quando na terra tocou,


Como os sonhos da menina.

O leite se esparramou

Derramado no caminho.

Só chão molhado restou.
..."
Na época me lembro que tive uma empatia grande pela menina, e fiquei mesmo com muita pena. Essa história está sempre na minha mente, hoje partilho aqui a minha reflexão, que não tem nada a ver com lição de moral sobre como devemos nos proceder. Eu acredito que a experiência da menina foi sim dolorosa, ela tinha sonhos, e sonhar não pode ser um erro. 
Sonhar deu-lhe imensa alegria. Os olhos marejados após o leite derramado é humano, ela não sofria só pelos sonhos que  se iam, ela perdeu o que tinha. Mas, fato é que só o leite se foi. 

Os sonhos nunca existiram enquanto realidade, não se perde o que não se tem. 

Mas o choro é mais pelos sonhos, porque ela não queria o leite, queria os sonhos. Às vezes, em nossa vida, nós também sonhamos, e desejamos um mundo de coisas boas a partir de um "leite" que temos. Acreditamos na capacidade fazê-lo render, crescer. Mas não podemos controlar tudo, lá estava uma pedra, ela tropeçou. 

Ela não pode ficar ali no chão a lamentar-se toda vida. O leite não volta mais. Os sonhos, entretanto, sim. Eles não estão num objeto, no outro, num trabalho, estão em nós. E é isso que lhe restou; a capacidade de sonhar e alegrar-se com isto.
Vai ser necessário, reerguer-se, trabalhar e tirar novo leite. Mas ela já conhece o caminho, as pedras que ali estão. Tudo nos serve de aprendizado. O encantamento e a alegria não foram os responsáveis, ela não foi culpada. Culpar-se não trará o leite derramado ao jarro. Deixe ir o que já se foi...o leite, mas não seus ideiais.

E diga-me, sinceramente, se nesta poesia não foi o sonho a coisa que mais fez sentido para que ela existisse? Não haveria poesia se não fosse o sonho, o encantamento. 

quarta-feira, 8 de junho de 2016

A difícil realidade de ser quem se é


Ela desejou naquele dia nascer homem. Embora gostasse de si, de sua beleza feminina, ela desejou ter nascido homem.
"O mundo não parece muito mais fácil para eles?" Questionou a si mesma num pensamento profundo e quase silencioso, se não fosse seu olhar vagueando e gritando tudo.
Os homens, para além de todas as conquistas profissionais, são os que cuidam, que protegem..."oh, que poder lhes é dado para ocuparem tal posição!".
Se já não bastasse, nos relacionamento, eles não precisam se apaixonar, podem sair por aí a curtir com todas, a experimentar a beleza e o sexo descomprometidamente. "Eles podem, este poder lhes foi  também dado."
Não precisam, quase que nem devem, aturar as discussões de relacionamento, as DRs que nós mulheres insistimos tanto. E podem esperar longos meses, anos para perceberem se o que sentem é de fato amor sem, com isso, correrem o risco de serem rejeitados. Não, não o serão, porque enquanto pensam,  enquanto decidem, seguem conquistando e ouvindo as mais belas declarações. "Oh, que poder lhes foi concedido".

Submersa em seu pensamento, lá pela madrugada, ela dormiu.
Às sete o despertador tocou, era ele tendo que correr porque tinha que ir procurar trabalho. Estava desanimado após ouvir tanto não. Tinha 28 anos, nesta idade não lhe era permitido não ter ainda encontrado um bom trabalho. Apesar da qualificação, aceitou aquela entrevista. Conseguiu o emprego: porteiro naquele prédio de ricos.
Talvez ele agora pudesse ao menos conseguir uma namorada. Talvez uma mulher o aceitaria e confiaria que ele a pudesse assumir.
Fim de semana chegando sabia que poderia ir no baile onde ela sempre aparecia. Talvez ele tivesse coragem agora de chegar e dizer...não, não queria bancar o idiota e dizer todos seus sentimentos, os amigos o tinham instruído, ia convidá-la para um jantar, qualquer coisa assim. Claro, se ele tivesse coragem. Afinal, aqueles caras que frequentam academia/ginásio, trabalham em escritório, que vivem pegando todas, sempre têm mais chance.
Se não fosse tão tímido, ou se fosse mais vistoso, ou se tivesse um trabalho melhor... Tomou um copo de cerveja para engolir aquele nó no pescoço. Era só o que faltava começar a chorar agora!

Neste momento ela acordou...ficou pensativa todo o dia. Um pensamento tão confuso que ela não conseguia traduzir.

Mas já sabia que não queria nascer homem, talvez outra sociedade, haverá outra com outros princípios, outros valores? Uma sociedade que não reprima seus homens e suas mulheres? Haverá uma sociedade menos formatada?

Ou deveria ela subverter, contrariar e, quem sabe um dia, fosse compreendida por um outro tão subvertido como ela?

quarta-feira, 1 de junho de 2016

Deus não é ninguém


Quem é Deus se não a representação simbólica de uma imagem que aprendemos na igreja?
Eu, há muito tempo, acreditei num Jesus milagroso, um Deus todo poderoso, porém mais justo que bom. Assim, este Deus apesar de me aceitar pecadora, exigia de mim não pecar para estar com ele. E o que é pecado se não normas interpretadas por homens (homens literalmente, as mulheres não estão incluídas) como condição para ir ao paraíso.

O paraíso, o que é? Supostamente um lugar sagrado onde vou me encontrar com Deus. Então Deus não está aqui?

Falar de Deus demanda que acreditemos em proposições, em imaterialidades, em ideias, desejos etc.. Mas de quem são, ou por quem foram propostas todas prerrogativas sobre Deus? A bíblia. Um livro escrito por homens que viveram num determinado contexto, formatados por determinados valores sociais.

Eu quis ser religiosa um dia. participei de encontros religioso de jovens, quis ser freira. Eu tava procurando Deus.

Hoje, todavia tenho cultivado em mim a minha própria representação de Deus. Não espero que seja certa, é apenas minha própria e legítima concepção que, apesar de influenciada pela igreja, passao ao largo dos domínios da mesma. Nisto, vou partilhar um pouco do que penso ser uma visita de Deus em minha vida.

Estava eu sentada com uma outra pessoa num café. Já haviámos feito os pedidos. Enquanto aguardávamos, chega um senhor estende a mão e cumprimenta-nos. Minha bolsa estava sobre a cadeira ao meu lado. O senhor olhou para ela como que precisasse ser retirada para que ele se sentasse. Eu retirei e ele sentou-se. Perguntou-me o preço do café, eu disse que seria aproximadamente 65 cêntimos. Ele reclamou, disse que o café estava caro, em outro lugar ele poderia comprar por 50. Fez-nos algumas perguntas, comentou sobre o tempo. O dono do café se aproxima e ele o pergunta o preço do café. Ao ouvir, reclama que está caro. O dono do café diz que ele só poderia se sentar ali se fosse pagar para consumir. O tal senhor continua a reclamar do preço do café, mas, a seguir à saida do dono do bar, continua a conversa conosco.

Eu estava um pouco sem graça, afinal não o conhecia. Ele comentou sobre o café que bebíamos e a comida que comíamos, nada demais. Reclamou que não lhe fora servido um café, embora ele não tivesse pedido.
Eu me levantei e pedi um café pra ele. O café chegou, ele reclamou num tom tranquilo e seguro sobre o atraso. Continuou a conversa com a gente. Falou um pouco de si. Ao terminar o café, levantou-se despediu de nós e foi-se embora. Não mencionou pagar o café, não agradeceu, mas despediu-se educadamente.

O dono do bar se aproxima e pergunta se conhecíamos o tal senhor, eu digo que não. Ele disse que se soubesse não o teria deixado sentar-se ao nosso lado. Ter-lhe-ia mandado embora. Eu argumentei que ele não incomodou, talvez não estivesse bem da cabeça, e um café não me custaria nada.

E o que isto tem a ver com o papo de Deus. Porque, para mim, Deus não vai surgir numa grande auréola com anjos e santos lhe fazendo coro. Deus, foi aquele homem desconhecido que sentou-se ao meu lado sem me conhecer, que pediu um café e conversou despreocupadamente. Não, não penso que Deus virá sempre para pedir como quem vem testar se sou boa pessoa ou não. Deus me vem através de um sorriso e um estímulo de um amigo. No silêncio, na natureza, no desconhecido, na despretensão eu encontro Deus.

Não sigo dogmas, nem pago dízimo, mas o que puder farei pelo outro quando sentir-me tocada e quando puder fazê-lo. Não sou religiosa, cultivo a religiosidade que passa pelo respeito ao próximo e a mim mesma. E posso errar, porque terei eu mesma que arcar com estas consequências. Não vivo pensando em não cometer erros, vivo pensando que posso aprender com tudo, que posso crescer e evoluir.

Mas quem sou eu pra dizer quem é Deus. Eu não sou ninguém. Mas em outros "ninguém" que também tenho encontrado Deus.
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