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quarta-feira, 8 de junho de 2016

A difícil realidade de ser quem se é


Ela desejou naquele dia nascer homem. Embora gostasse de si, de sua beleza feminina, ela desejou ter nascido homem.
"O mundo não parece muito mais fácil para eles?" Questionou a si mesma num pensamento profundo e quase silencioso, se não fosse seu olhar vagueando e gritando tudo.
Os homens, para além de todas as conquistas profissionais, são os que cuidam, que protegem..."oh, que poder lhes é dado para ocuparem tal posição!".
Se já não bastasse, nos relacionamento, eles não precisam se apaixonar, podem sair por aí a curtir com todas, a experimentar a beleza e o sexo descomprometidamente. "Eles podem, este poder lhes foi  também dado."
Não precisam, quase que nem devem, aturar as discussões de relacionamento, as DRs que nós mulheres insistimos tanto. E podem esperar longos meses, anos para perceberem se o que sentem é de fato amor sem, com isso, correrem o risco de serem rejeitados. Não, não o serão, porque enquanto pensam,  enquanto decidem, seguem conquistando e ouvindo as mais belas declarações. "Oh, que poder lhes foi concedido".

Submersa em seu pensamento, lá pela madrugada, ela dormiu.
Às sete o despertador tocou, era ele tendo que correr porque tinha que ir procurar trabalho. Estava desanimado após ouvir tanto não. Tinha 28 anos, nesta idade não lhe era permitido não ter ainda encontrado um bom trabalho. Apesar da qualificação, aceitou aquela entrevista. Conseguiu o emprego: porteiro naquele prédio de ricos.
Talvez ele agora pudesse ao menos conseguir uma namorada. Talvez uma mulher o aceitaria e confiaria que ele a pudesse assumir.
Fim de semana chegando sabia que poderia ir no baile onde ela sempre aparecia. Talvez ele tivesse coragem agora de chegar e dizer...não, não queria bancar o idiota e dizer todos seus sentimentos, os amigos o tinham instruído, ia convidá-la para um jantar, qualquer coisa assim. Claro, se ele tivesse coragem. Afinal, aqueles caras que frequentam academia/ginásio, trabalham em escritório, que vivem pegando todas, sempre têm mais chance.
Se não fosse tão tímido, ou se fosse mais vistoso, ou se tivesse um trabalho melhor... Tomou um copo de cerveja para engolir aquele nó no pescoço. Era só o que faltava começar a chorar agora!

Neste momento ela acordou...ficou pensativa todo o dia. Um pensamento tão confuso que ela não conseguia traduzir.

Mas já sabia que não queria nascer homem, talvez outra sociedade, haverá outra com outros princípios, outros valores? Uma sociedade que não reprima seus homens e suas mulheres? Haverá uma sociedade menos formatada?

Ou deveria ela subverter, contrariar e, quem sabe um dia, fosse compreendida por um outro tão subvertido como ela?

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