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quarta-feira, 15 de junho de 2016

Deixe ir o que já se foi.


Quando eu estava no quinto ou sexto ano escolar uma das coisas que mais gostava na aula de português eram as poesias contidas nos livros didáticos. Óbvio que os professores daquele tempo usavam as poesias apenas para trabalhar gramática e normas da língua portuguesa. Não havia uma reflexão sobre a leitura. Talvez julgassem que nós crianças não a podia fazer. Mas algumas histórias ficaram gravadas em minha mente. Uma delas é "A menina do leite" de Rosa Ramos.

Hoje encontrei a poesia e percebi que, na altura, não a tinha conhecido por completo. O nosso livro apenas contia um trecho, exatamente o que eu irei colocar aqui abaixo. Confesso que gostei do recorte que tínhamos, a poesia completa quase que já te dá uma lição de moral. E, pra mim, uma boa literatura é aquela que não diz a você o que há dito, mas te faz pensar no tanto que se há por dizer.


"Num dia primaveril,
Claro e ensolarado,

Seguia aquela menina

A caminho do mercado.


Com seu jarro na cabeça

Oferecia e sorria:

- Olha o leite! – Olha o leite!

Este era o seu dia a dia.
...
Caminhava tranqüilamente,
Suavemente, imitando
Quase que um passo de dança,
Alegremente pensando:


“Venderei todo esse leite,

Com o dinheiro comprarei

Cem ovos. E cem pintinhos

Logo, logo, pois, terei.”
“Os pintinhos vão crescer,

Então eu os trocarei,

No mercado, por um porco

Ao qual engordarei”.

“Quando ele ficar roliço

Então eu o trocarei

Numa vaca com bezerro,

A quem alimentarei”.
“Sendo bem alimentada,

Muito leite ela dará,

Com o qual farei muitos queijos.

E o bezerro crescerá

Forte e sadio...” – Já estou

Vendo o bichinho correr

No campo, entre as ovelhas!

Diz ela, a estremecer.

Há em seus olhos um brilho

De puro contentamento.

E a menina esquece

Do jarro, por um momento.
...
Com o movimento brusco
O jarro escorregou
E se desfez em pedaços
Quando na terra tocou,


Como os sonhos da menina.

O leite se esparramou

Derramado no caminho.

Só chão molhado restou.
..."
Na época me lembro que tive uma empatia grande pela menina, e fiquei mesmo com muita pena. Essa história está sempre na minha mente, hoje partilho aqui a minha reflexão, que não tem nada a ver com lição de moral sobre como devemos nos proceder. Eu acredito que a experiência da menina foi sim dolorosa, ela tinha sonhos, e sonhar não pode ser um erro. 
Sonhar deu-lhe imensa alegria. Os olhos marejados após o leite derramado é humano, ela não sofria só pelos sonhos que  se iam, ela perdeu o que tinha. Mas, fato é que só o leite se foi. 

Os sonhos nunca existiram enquanto realidade, não se perde o que não se tem. 

Mas o choro é mais pelos sonhos, porque ela não queria o leite, queria os sonhos. Às vezes, em nossa vida, nós também sonhamos, e desejamos um mundo de coisas boas a partir de um "leite" que temos. Acreditamos na capacidade fazê-lo render, crescer. Mas não podemos controlar tudo, lá estava uma pedra, ela tropeçou. 

Ela não pode ficar ali no chão a lamentar-se toda vida. O leite não volta mais. Os sonhos, entretanto, sim. Eles não estão num objeto, no outro, num trabalho, estão em nós. E é isso que lhe restou; a capacidade de sonhar e alegrar-se com isto.
Vai ser necessário, reerguer-se, trabalhar e tirar novo leite. Mas ela já conhece o caminho, as pedras que ali estão. Tudo nos serve de aprendizado. O encantamento e a alegria não foram os responsáveis, ela não foi culpada. Culpar-se não trará o leite derramado ao jarro. Deixe ir o que já se foi...o leite, mas não seus ideiais.

E diga-me, sinceramente, se nesta poesia não foi o sonho a coisa que mais fez sentido para que ela existisse? Não haveria poesia se não fosse o sonho, o encantamento. 

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