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quinta-feira, 7 de dezembro de 2017

O nó no peito



Eu nunca me esqueço dos ensinamentos de minha avó.
Ela lavando roupa,
com o olho na roupa outro em mim.
Perguntou o que tava me encucando.

Eu respondi que tava pensando como tirar nó do peito.
Eu disse que tinha bebido água e não passava.

Ela me chegou bem  perto.
Mostrou uma blusa branca com uma nódoa bem escura
-Já esfreguei e não sai nem com reza braba.
Pus então um bocado de sabão
e tá quarando no sol.
Vou lavando as outras enquanto isso.

Minha vó era muito sábia,
quando ela havia terminado com as demais roupas
voltou-se à camiseta branca,
e num era que o sol lhe tinha feito milagre!

Mas e meu nó no peito, minha vó?
Como o tiro e ponho-o no sol?

Não ponha, disse-me ela,
E também não tente tirá-la em vão,
eu poderia ter rasgado o tecido se o tivesse forçado na mão,
não rasgue a si mesma botando demasiada força
ponha atenção.

Peguei as palavras de minha vó,
não sei se as entendi bem.
Mas fui observando meu nó,
e segui meu rio.

Fui lavando em mim mesma tudo aquilo que dava conta
Pouco a pouco, fui sentindo-me tão bem
como se o sol tivesse entrado em mim
Minha nódoa já não estava mais ali. 

Nana Andrade



domingo, 8 de outubro de 2017

A troca

A troca

o sapato lhe apertava os pés,
ele trocou
tal como fez com a camisa amassada.
era um homem de posse
gostava de possuir coisas

trocou o carro 
de um lento a um mais veloz
trocou a casa grande por uma menor
ele precisava se perceber alí
era um homem de posses
gostava de possuir tempo

trocou de trabalho
trocou a cama
e a namorada também 
era um homem de posses
gostava de possuir pessoas

Que pena,
devia pensar sobre si,
que tudo a sua volta podia trocar
mas não era capaz de trocar a si mesmo

Era um homem de posses,
mas não possuía  a si próprio.

Nana Andrade

segunda-feira, 26 de junho de 2017

O jogo, o tempo e o espaço nas relações amorosas


Neste post vou falar sobre o jogo: aquela mania que mulheres e homens têm de dizer ou fazer uma coisa, pensando outra para ver/perceber a relação do parceiro; o tempo: aquela espera necessária que os apaixonados desconhecem quando se envolvem numa relação; e o espaço: aquilo que um dos parceiros, cegos de paixão, tira ou sufoca no outro.

O jogo

Muitas pessoas no ínicio de relacionamentos têm medo de se expressarem. Dizem não, quando querem dizer sim. Ou dizem sim, mesmo se gostariam de dizer não. Elas evitam falar o que estão sentindo até perceber "qual é" a do outro. Como se esta fosse uma obrigação do outro começar.

Conheço pessoas que mantém-se frias ou demoram a responder as mensagens no telefones para "dar uma de difícil". Esse é o chamado jogo da conquista, acredito que é o lado infantil nosso se manifestando nessa brincadeira que tem lá algum prazer. Por outro lado, isso também demosntra o medo e a insegurança por não saber o que o outro quer. 

O jogo tanto pode desafiar quanto cansar o outro. Qualquer que seja sua consequência ele não é uma segurança para manter um relacionamento. O outro pode se cansar, e pode não interpretar bem as regras mal elaboradas ou precipitadas em si mesmas. Por outro lado, o desafio da sedução em algumas vezes pode vir a funcionar. 

Mas cá entre nós, começar uma relação com jogos, não é a forma mais honesta, não é mesmo?

O tempo

Aquela espera que é essencial em tudo em nossa vida, mas que na maioria das vezes atropelamos com nossa ansiedade, principalmente em nossas relações.

A pressa em saber se o outro quer relacionamento sério ou não, a pressa da conquista ou a ansiedade da paixão que não respeita o tempo é, sem dúvida, um veneno a qualquer relacionamento. Movido por decepções antigas ou pelo imediatismo que vivemos em nossa sociedade, não sabemos respeitar o tempo nosso, o tempo para descobrir e compreender os nossos sentimentos, tal como o do outro, e assim perceber que relação se está plantando.

Atropelar o tempo, antecipar e buscar certezas da conquista não adianta nada, pelo contrário, findará qualquer coisa que esteja a começar.

Não há receita, mas temos exemplos dos quais podemos tirar nossas lições. Compre um vaso, jogue a semente e cuide: dê água, boa terra e coloque-a onde tenha luz. Por mais que desejemos, só em seu tempo a planta virá e florescerá. O início, portanto, requer entrega e cuidado, entretanto, sem certeza nenhuma de que os frutos serão bons.


O espaço

A distância é fundamental em qualquer relação, inclusive a nossa pessoal. É preciso tomar distância do que pensamos e desejamos; pois nem sempre estamos tendo a clareza dos fatos para uma escolha serena e sábia. 

Espaço e tempo andam de mãos dadas; se não respeita um, não poderá respeitar o outro. Nenhum relacionamento sobrevive, ou sobrevive bem, se não houver respeito ao espaço e tempo dos envolvidos.

Uma relação onde já começa sufocando o outro, exigindo e colocando responsabilidades no outro é como deitar um copo numa vela acesa: o fogo apaga.

O outro não é responsável por nossas decepções, por nossas ansiedades e medos. O outro não está ali para completar o que nos falta: não ponha sobre o outro a responsabilidade que é tua. 

Deixe que o outro seja ele mesmo e descubra por si só se ele/ela está suficientemente envolvido para continuar a relação ou não. Dê o tempo, mas não se esqueça de também dar o espaço suficiente. 

Espaço suficiente: nem pouco, que o outro não tenha espaço para se manifestar; nem muito, que o outro não saiba se será acolhido em sua entrega.

Qual medida?

Não há receita, o certo é que espaço de mais dá abertura pra jogos que ignoram o tempo. Espaço de menos sufoca, atropela o tempo. 

No fim, parece que tudo é uma questão de jogar: jogar um jogo em qual somos lançados. As regras não são nossas, elas vão se construindo no respeito de cada movimento do outro e nosso.

A medida é amar sem impor ao outro aquilo que é nosso.

Entre numa relação com se estivesse cultivando um jardim, não se começa colhendo, mas doando, cuidando. E não espere que o que está sendo cultivado tenha obrigação de ser belo. Há outros fatores que contam numa jardinagem: a luminosidade, a quantia de água, a fertilidade da terra. Tudo isso colocam o jardineiro e a planta como atores vulneráveis da colheita.





sexta-feira, 9 de junho de 2017


Não guardemos rancor e sejamos mais pacientes com os que convivem conosco. Conviver não é tarefa simples, é muito fácil desenvolver empatia pelas pessoas lindas e carinhosas que encontramos ocasionalmente ou virtualmente, mas que não temos que lidar diariamente.
A rotina não tem jeito, traz à luz os detalhes. Os defeitos e as qualidades que nem sabemos ter, e que os outros não sabem que têm. Mas lembremos que tanto as qualidades quanto os defeitos são juízos de valores, às vezes, importantes só pra nós. Por isso sejamos empáticos, coloquemo-nos no lugar do outro. Sejamos generosos ao apontar-lhes o que julgamos ser defeitos, mas, sobretudo, evidenciemos sempre o que julgamos ser qualidade. E estejamos igualmente abertos às críticas e elogios. Isso balança e fortalece as relações. 
Não fique só à espera de receber, doe! Se o outro não faz, faça você. Mas fale, o diálogo é fundamental. Ninguém tem uma bola de cristal para adivinhar o que te/nos incomoda.
Seja seu marido, esposa, filho, filha, pai, mãe, amigo, seja quem for que compartilhe seu lar, seja todo o amor, generosidade e respeito que você espera em toda sociedade. Embora possa não ser fácil, somente assim iremos evoluir, crescer e aprender a viver em sociedade. Nossa casa é nossa primeira escola de convivência e da construção da paz.

sábado, 3 de junho de 2017

Mande-me foto


Uma colega queixou-se que estava sozinha, sua idade avançava e não conhecia ninguém "interessante". Queixou-se que conhecera um rapaz recentemente, que ficou muito interessado nela, mas o rapaz, dez anos mais jovem, vez ou outra comentava sobre as mulheres mais velhas num tom que, para ela, soara preconceituoso.

Naquele papo descontraído, eu disse-lhe que tinha um colega mais maduro, que talvez ela quisesse conhecê-lo. Mas fiquei um pouco sem palavras quando ela disse-me: "ah, mande-me foto pra eu ver".

Ver o quê? Perguntei-me.

Exceto que você tenha dons extraordinários, numa foto a única coisa que você vai conseguir ver é um corpo numa determinada posição, possivelmente, pelo ângulo, edição e convenção de beleza te agradará ou não. Mas não poderá ver se é uma pessoa sábia, agradável, gentil e se sabe escutar e gosta de partilhar experiências e conversas.

O que temos encontrado em nossas relações, sejam elas de amizade ou conjugais, refletem aquilo que estamos buscando.

Mande-me uma foto é uma frase talvez ingênua, naturalizada no imediatismo que vivemos.

Toda relação, inclusive conosco mesmo, tem um tempo próprio mas, muitas vezes, atropelamo-lo, o que resulta em amores mal construídos e dissolvidos de forma desastrosa e amarga.

Mande-me foto ou conte-me mais?





segunda-feira, 22 de maio de 2017

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