Desde criança
eu soube diferenciar as pessoas que me queriam bem das que me colocavam em
perigo.
E me afastei dessas. Fui crescendo e a cada situação ou pessoa que me fazia mal eu me afastava.
Fui me afastando de tudo que me
fazia mal, no real ou na fantasia. Descobri, porém, que estava a me afastar
demais. Percebi que havia caminhado tanto e tão
longe que resolvi me observar.
Afastar não
era só defesa, era fuga. Fugia de pessoas, situações
e problemas. Era verdade que ao fugir eu não
estava mais em iminente perigo. Mas também deixava de estar com pessoas e
ambientes que eu reconhecia.
Fui percebendo, então,
que fugi demais, fugi tanto que afastei daquilo que me podia fazer o melhor.
Pois,
fugi de mim mesma.
Eu era sempre uma estrangeira, estava sempre a recomeçar,
sempre mais criteriosa, mais desconfiada e mais medrosa. Sim, porque fugir era
também medo, medo de enfrentar.
Quando percebi
que estava longe de mim, que não
me reconhecia e que minhas pernas doloridas, minha mente cansada já não
mais suportavam o próprio desejo de me afastar, quando a fuga foi longa e o
medo foi tanto percebi-me sozinha; longe de tudo, de todos, e tão
longe de mim.
Decidi parar. Decidi que a partir de hoje vou enfrentar as
pessoas, vou enfrentar as situações,
vou enfrentar a mim. Vou ter coragem de enfrentar meu medo e meu instinto de
fuga.
E não
esperei a próxima segunda feira, nem o próximo ano novo, comecei hoje. Com o
coração batendo forte, com a voz
trêmula. Ainda tenho medo e vontade de fugir...mas estou decidida, estou a
lutar...


